A Necropapiloscopia Forense, área responsável pela identificação de pessoas mortas por meio das impressões digitais, tem papel central no processo de identificação das vítimas da Operação Contenção, considerada a mais letal da história do Estado do Rio de Janeiro. A operação, realizada na última terça-feira (28) nos complexos do Alemão e da Penha, mobilizou cerca de 2,5 mil policiais e resultou oficialmente em 121 mortos, sendo quatro deles policiais. O estado reconhece que o número de vítimas ainda pode aumentar, enquanto organizações da sociedade civil apontam que o total já ultrapassa 130.
De acordo com o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Victor Santos, uma força-tarefa foi montada no Instituto Médico Legal (IML) para acelerar as identificações.
“No IML, foi montada uma força-tarefa para fazer a identificação. Existem processos de identificação: identificação da própria parente, que reconhece a vítima, a pessoa morta; tem o processo da papiloscopia; e os mais complexos, de DNA e outros tantos. Então, não é fácil, não é rápido, mas a gente acredita que até o final de semana, dentro dessa rotina, a gente consiga fazer a identificação de todos”, afirmou Santos.
O secretário falou com a imprensa em entrevista coletiva, após reunião com parlamentares no Centro Integrado de Comando e Controle da Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro. Ao todo, participaram da reunião dez deputados federais, nove deputados estaduais e quatro vereadores da capital.
O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, acrescentou que há muitos mortos que são de outros estados.
“A identificação leva mais tempo, justamente porque a gente tem que falar com a polícia técnica desses estados correspondentes, para obter mais dados e ter a identificação precisa desses corpos. Por isso, que está levando um pouco mais de tempo”, afirmou.
Perguntado sobre a divulgação dos nomes dos mortos, Curi disse que uma lista “será divulgada no momento oportuno”.
Segundo informações divulgadas por parlamentares que visitaram o IML nesta quinta-feira (30), 100 dos 121 mortos já foram identificados. Todos os corpos passaram por necropsia, mas os laudos, que detalham as causas e circunstâncias das mortes, devem ser divulgados apenas em um prazo de 10 a 15 dias úteis. Até o momento, 60 corpos foram liberados para sepultamento.
Deputados federais e estaduais que participaram da diligência cobraram a divulgação da lista com os nomes dos mortos já identificados. De acordo com o deputado federal Henrique Vieira (PSOL-RJ), a direção do IML informou que a publicação dessa relação é responsabilidade da Secretaria de Polícia Civil.
“Se já tem um número de identificados e um número de liberados, por que isso ainda não é público? A única conclusão é que o Secretário de Polícia Civil ainda não autorizou”, afirmou Vieira.
A deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) acrescentou que os responsáveis pelo IML alegaram que a operação faz parte de uma investigação, o que impede a divulgação imediata dos nomes.
“Isso mostra que eles já têm uma pré-caracterização de quem são esses mortos, de que há o envolvimento deles em algum crime”, disse.
A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) também destacou a dor das famílias que enfrentam dificuldades para reconhecer os corpos.
“É um direito constitucional. A justificativa é falta de espaço e o fato de a perícia ser técnica, com identificação por papiloscopia, DNA ou radiografia. Mas nós apelamos porque a dor das famílias é muito grande”, declarou.
A importância e o papel da Necropapiloscopia
A Necropapiloscopia Forense é uma área pericial que trata da identificação humana em cadáveres por meio de impressões digitais. O processo é científico e tem início assim que um corpo de identidade desconhecida chega ao Instituto Médico Legal (IML). O trabalho dos Papiloscopistas Policiais é essencial para identificar as vítimas, por meio de consultas documentais e coleta de impressões digitais, que são confrontadas com os registros obtidos em vida, permitindo chegar aos familiares e realizar a entrega do corpo.
Antes dos sepultamentos, todos os corpos são devidamente registrados nos bancos de dados do IML, com coletas digitais, fotografias e materiais biológicos, garantindo que, no futuro, familiares possam solicitar novas comparações. É um trabalho silencioso, técnico e de extrema relevância social, pois cada identificação significa uma resposta concreta às famílias e a restauração de um direito fundamental: o de saber quem partiu.
Como funciona o procedimento no IML do Rio de Janeiro
O Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto (IMLAP), localizado no Centro do Rio de Janeiro, é o principal responsável pelos exames necroscópicos e pelas identificações das vítimas da Operação Contenção.
Etapas do processo:
Coleta: As impressões digitais dos cadáveres são colhidas pelos papiloscopistas.
Confronto: Essas impressões são comparadas com os registros civis (como RG, CNH) e com os bancos de dados do Instituto de Identificação Félix Pacheco (IIFP), órgão responsável pela identificação civil no estado.
Resultado: Quando há compatibilidade dos pontos característicos das digitais, a identidade é confirmada, e a família é orientada sobre a liberação do corpo e a documentação necessária.
Outros métodos: Caso a necropapiloscopia não seja possível, por exemplo, em casos de decomposição avançada, outros métodos são utilizados, como a odontologia legal (análise da arcada dentária) ou, em último caso, o exame de DNA, que é mais demorado.
A precisão dos Papiloscopistas a serviço da dignidade humana
Por trás dos números e dos dados oficiais, há um trabalho técnico de altíssimo nível, conduzido com precisão científica e profundo senso de humanidade. Os Papiloscopistas que atuam na necropapiloscopia unem conhecimento especializado, métodos avançados e sensibilidade para devolver nomes às vítimas e respostas às famílias.
Em meio à dor e à complexidade das operações, sua atuação demonstra que a perícia papiloscópica é não apenas uma ciência exata, mas também um instrumento de verdade, justiça e compaixão.
O presidente da ABRAPOL, PPF Régis, parabenizou o trabalho de identificação realizado pelos Papiloscopistas, destacando a competência técnica e o comprometimento desses profissionais.
“Nos momentos mais difíceis, o trabalho dos Papiloscopistas se revela essencial para restabelecer a verdade e dar respostas à sociedade. Parabenizo todos os profissionais envolvidos pelo rigor científico, pela dedicação e pela sensibilidade com que conduzem cada identificação. Nossa homenagem se estende também aos policiais que perderam suas vidas nessa operação, heróis que dedicaram sua existência à proteção da sociedade.”