A produção científica brasileira sobre análise de impressões digitais vem apresentando crescimento expressivo, consolidando o país como um dos principais polos de pesquisa em papiloscopia da América Latina. O levantamento foi conduzido pelo Papiloscopista Policial Federal Marco Antonio de Souza, lotado no Instituto Nacional de Identificação (INI/PF), e apresenta uma revisão sistemática da produção nacional entre 2020 e 2024. O estudo Fingerprint Research in Brazil (2024 – 2024): A Systematic Review of Trends, Technologies, and Institucional Collaborations evidencia o amadurecimento da pesquisa científica brasileira na área, com destaque para o aumento de publicações e o fortalecimento das parcerias entre universidades e órgãos periciais.
Crescimento da produção científica da Polícia Federal
Entre 2020 e 2024, foram identificados 27 artigos científicos sobre papiloscopia com afiliação brasileira e participação da PF, um aumento de cerca de 300% em relação ao período de 2010 a 2019, quando apenas 7 estudos haviam sido identificados em pesquisa anterior.
Segundo o autor a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e a Universidade de Brasília (UnB) figuram entre as principais instituições parceiras da PF nesta área do conhecimento. Um marco importante desse processo foi a criação, em 2020, do Grupo de Pesquisa Papiloscopia Forense, sediado na Academia Nacional de Polícia (ANP) e vinculado ao CNPq, que tem promovido a integração entre peritos, papiloscopistas e pesquisadores de diferentes regiões do país.
Os membros do grupo participaram diretamente de 22 do total de artigos identificados na revisão como sendo da PF, correspondendo a mais de 35% da produção nacional recente sobre o tema no período avaliado.
Da análise química à inteligência artificial
O estudo mostra que parte significativa da produção brasileira ainda se concentra no desenvolvimento de reagentes químicos e novos materiais para revelação de impressões latentes, como nanopartículas e compostos fluorescentes. No entanto, observa-se uma expansão crescente em direção ao uso de tecnologias analíticas e computacionais, com a incorporação de inteligência artificial, aprendizado profundo e espectroscopia nos experimentos científicos.
Essas abordagens vêm permitindo novas aplicações, como a determinação de características químicas e biológicas das amostras e a estimativa do tempo de deposição de impressões digitais, um tema que tem ganhado destaque internacional.
Um exemplo dessa vertente tecnológica é o estudo Chemical Changes of Aged Latent Fingerprints by Fourier Transform Infrared Spectrometry and Machine Learning, publicado na revista Microchemical Journal (Elsevier). O artigo é assinado por Kristiane de Cássia Mariotti, Papiloscopista Policial Federal do Núcleo de Identificação da PF no Rio Grande do Sul e atual líder do grupo de Pesquisa Papiloscopia Forense, em coautoria com Marco Antonio de Souza (INI/PF) e pesquisadores da UFRGS e da UnB.
A pesquisa utiliza Espectroscopia de Infravermelho com Transformada de Fourier (FTIR), técnica não destrutiva capaz de identificar mudanças químicas nas amostras ao longo do tempo. Impressões digitais foram monitoradas sob diferentes condições de luz e temperatura, demonstrando que a exposição luminosa acelera a degradação dos componentes orgânicos das secreções humanas.
Os resultados, processados com auxílio de modelos de aprendizado de máquina (machine learning), mostraram que é possível classificar as amostras conforme o tempo e as condições de armazenamento, indicando caminhos promissores para a datação de impressões digitais latentes, um dos grandes desafios da papiloscopia moderna.
Perspectivas
O conjunto dessas pesquisas demonstra que a papiloscopia brasileira passa por um período de amadurecimento técnico e diversificação temática, com crescente integração entre ciência forense, química analítica e inteligência artificial.
Embora a maioria dos estudos ainda esteja em fase experimental, os resultados revelam um potencial significativo para o desenvolvimento de metodologias aplicáveis
no contexto policial, fortalecendo a base científica que sustenta a identificação humana no Brasil.
Saiba mais sobre os artigos publicados:
Fingerprint Research in Brazil (2020–2024): A Systematic Review of Trends, Technologies, and Institutional Collaborations
Revista Brasileira de Criminalística — resumo disponível em:
https://www.rbc.org.br/index.php/rbc/article/view/1018
Chemical Changes of Aged Latent Fingerprints by Fourier Transform Infrared Spectrometry and Machine Learning
Microchemical Journal (Elsevier) — resumo disponível em:
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0026265X25033508
“É motivo de orgulho ver a excelência e o crescimento da pesquisa científica em papiloscopia conduzida pelos nossos papiloscopistas. Esses estudos fortalecem a base da identificação humana no Brasil e demonstram como ciência, tecnologia e dedicação profissional caminham juntas para servir à sociedade.” — PPF Régis, Presidente da ABRAPOL