Necropapiloscopia foi definida como principal método de identificação durante força-tarefa que mobilizou profissionais de diferentes regiões do estado após acidente que deixou 23 mortos
A atuação dos papiloscopistas teve papel de destaque na complexa operação de identificação das vítimas do grave acidente ocorrido na madrugada de 19 de agosto de 2026, no km 209 da BR-373, no município de Ipiranga, região dos Campos Gerais do Paraná.
A colisão envolveu um micro-ônibus da Secretaria Municipal de Saúde de Imbituva e uma carreta. O veículo da prefeitura transportava pacientes e acompanhantes para consultas e tratamentos em unidades de saúde da Grande Curitiba.
O acidente deixou 23 pessoas mortas e cinco feridas, mobilizando uma grande força-tarefa formada por profissionais da Polícia Científica, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e outros órgãos públicos.
Diante da dimensão e da complexidade da ocorrência, a Polícia Científica do Paraná acionou o protocolo DVI — Disaster Victim Identification (Identificação de Vítimas de Desastres), procedimento internacional utilizado em eventos com múltiplas vítimas.
Equipes das unidades técnico-científicas de Ponta Grossa, Curitiba e Guarapuava foram mobilizadas para reforçar os trabalhos, enquanto a Polícia Civil ampliou o efetivo de papiloscopistas envolvido diretamente nos procedimentos de identificação.
Necropapiloscopia como método principal
Entre os diferentes procedimentos empregados pela força-tarefa, a necropapiloscopia foi definida como o principal método para o reconhecimento das vítimas.
A técnica consiste na obtenção e análise das impressões digitais de pessoas falecidas e no posterior confronto desses registros com dados biométricos oficiais. Dependendo das condições do corpo, podem ser necessários procedimentos técnicos específicos para possibilitar a recuperação adequada das impressões e a obtenção de material com qualidade suficiente para comparação.
O chefe da Divisão Operacional da Polícia Científica do Paraná, perito Leonel Letnar Junior, informou durante os trabalhos que, diante das condições em que os corpos foram recebidos, havia perspectiva de que a necropapiloscopia possibilitasse identificações de maneira rápida e segura.
O trabalho contou com o reforço de papiloscopistas e outros profissionais vindos de diferentes localidades do estado, permitindo que os procedimentos de identificação fossem realizados simultaneamente às necropsias e demais exames médico-legais.
A mobilização apresentou resultado expressivo: as 23 vítimas fatais foram oficialmente identificadas ainda no dia 19 de agosto, permitindo o avanço dos procedimentos de liberação dos corpos e comunicação às famílias.
Impressões digitais são referência internacional em identificação de vítimas
A utilização da papiloscopia em uma ocorrência dessa dimensão evidencia a relevância científica das impressões digitais nos processos de identificação humana.
De acordo com os protocolos internacionais de DVI da INTERPOL, impressões digitais, registros odontológicos e DNA estão entre os recursos utilizados para estabelecer de forma conclusiva a identidade de vítimas de grandes desastres. O procedimento envolve etapas que abrangem o exame do local, levantamento de informações post mortem, obtenção de informações ante mortem e posterior confronto dos dados.
Nesse contexto, a atuação do papiloscopista é fundamental. A análise técnica permite estabelecer a identidade de maneira científica, segura e objetiva, oferecendo às autoridades elementos confiáveis para os procedimentos legais e, sobretudo, permitindo que as famílias recebam oficialmente seus entes queridos.
Em situações de múltiplas vítimas, rapidez e precisão precisam caminhar juntas. Uma identificação equivocada pode gerar consequências humanas e jurídicas irreparáveis. Por isso, todos os procedimentos seguem critérios técnicos rigorosos antes que uma identidade seja oficialmente confirmada.
Protocolo DVI mobilizou estrutura multidisciplinar
O protocolo DVI foi acionado ainda nas primeiras horas após o acidente. Além da identificação, as equipes trabalharam na localização, registro, coleta, individualização e preservação das vítimas fatais e dos demais vestígios encontrados no local.
Após a conclusão das atividades iniciais na rodovia, os corpos foram encaminhados para a unidade da Polícia Científica em Ponta Grossa, localizada junto ao Campus Uvaranas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
No local, uma estrutura especial foi mobilizada para realização dos procedimentos de necropsia, identificação e demais exames necessários.
A operação reuniu médicos-legistas, peritos criminais, papiloscopistas e outros profissionais. Servidores de diferentes cidades, inclusive profissionais que estavam de folga, também se apresentaram para reforçar as equipes diante da dimensão da tragédia.
O DVI é justamente desenvolvido para permitir essa atuação coordenada. Segundo a INTERPOL, a identificação visual, isoladamente, não é considerada suficiente em ocorrências dessa natureza, razão pela qual métodos científicos como impressões digitais, odontologia legal e DNA assumem importância central.
Trabalho técnico também representa respeito às famílias
Por trás de cada procedimento de identificação existe uma família aguardando uma resposta.
Enquanto papiloscopistas, médicos-legistas e demais profissionais realizavam os exames, uma estrutura de acolhimento foi organizada para receber parentes das vítimas em Ponta Grossa.
Psicólogos da Polícia Militar foram mobilizados para auxiliar as famílias e a Defensoria Pública do Paraná também participou da operação, prestando orientações relacionadas aos procedimentos jurídicos posteriores à identificação e liberação dos corpos.
A Prefeitura de Imbituva, município de onde partiu o micro-ônibus, decretou luto oficial e concentrou na Secretaria Municipal de Saúde o atendimento e a orientação aos familiares.
A divulgação dos nomes ocorreu somente depois da confirmação técnica das identidades e da comunicação às famílias, medida essencial para garantir segurança às informações e respeito às pessoas diretamente atingidas pela tragédia.
Investigação sobre a dinâmica do acidente
Paralelamente aos trabalhos de identificação, equipes da Polícia Rodoviária Federal, Polícia Científica e Polícia Civil iniciaram a apuração das circunstâncias da colisão.
Informações preliminares apontaram que a carreta teria avançado sobre a faixa contrária antes de atingir o micro-ônibus. A conclusão definitiva sobre a dinâmica e as causas do acidente, entretanto, depende dos laudos e das investigações conduzidas pelas autoridades competentes.
O micro-ônibus transportava moradores de Imbituva, entre pacientes e acompanhantes, para atendimento médico na região de Curitiba. Entre as 23 vítimas fatais estavam 13 mulheres, oito homens e duas crianças. Cinco pessoas sobreviveram ao acidente e foram encaminhadas para atendimento hospitalar em Ponta Grossa.
ABRAPOL destaca atuação dos papiloscopistas
A tragédia na BR-373 evidencia, mais uma vez, a importância da Papiloscopia para a identificação humana e para a resposta do Estado em situações de grande complexidade.
Em um cenário marcado pela urgência, pela necessidade de precisão técnica e pelo sofrimento de dezenas de famílias, os papiloscopistas atuaram integrados aos demais profissionais envolvidos na força-tarefa, colocando conhecimento científico e experiência a serviço da sociedade.
A utilização da necropapiloscopia como principal método de identificação demonstra a capacidade técnica desses profissionais e a relevância das impressões digitais como instrumento seguro, eficiente e reconhecido internacionalmente para o estabelecimento da identidade humana.
A Associação Brasileira dos Papiloscopistas Policiais Federais – ABRAPOL reconhece e valoriza o trabalho dos papiloscopistas envolvidos na operação, assim como o de todos os profissionais e instituições mobilizados no atendimento à ocorrência.
Em momentos de profunda dor, a ciência da identificação humana cumpre uma missão que ultrapassa a dimensão técnica: restituir nomes às vítimas, proporcionar respostas às famílias e contribuir para que cada pessoa possa ser entregue aos seus familiares com dignidade, segurança e respeito.
A ABRAPOL manifesta ainda sua solidariedade aos familiares e amigos das vítimas da tragédia e deseja plena recuperação aos sobreviventes.