Iniciativa conjunta entre as perícias de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul devolve identidade a desaparecidos e alívio às famílias
O trabalho conjunto da perícia oficial de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul possibilitou a identificação de dois cidadãos sul-mato-grossenses que haviam sido enterrados como desconhecidos no estado vizinho. Em um dos casos, a família só foi localizada quase dois anos após o falecimento da vítima.
A ação faz parte do projeto “Lembre de Mim”, desenvolvido pela Politec (Perícia Oficial e Identificação Técnica) de Cuiabá. A iniciativa já catalogou 118 casos de pessoas sem identificação no IML (Instituto Médico Legal) de Cuiabá desde 2009, incluindo três naturais de Mato Grosso do Sul. O projeto utiliza impressões digitais e bancos de dados nacionais para realizar as identificações e aliviar o sofrimento de famílias que aguardam notícias de entes desaparecidos.
Um dos casos mais recentes foi o de Sebastião Edemyr, identificado quase dois anos após a sua morte, vítima de execução. Seu irmão, Ednei Echague Leite, professor de 54 anos, soube do ocorrido após contato da equipe do projeto. Ele contou que passou 1 ano e 11 meses sem notícias do irmão, de 46 anos.
“Ele ficou com ela até o dia 19 e, supostamente, foi embora para Jardim, em Mato Grosso do Sul, que é a nossa terra natal. A gente não tinha tanto contato, tivemos muitos problemas. Como ele foi embora, pra mim, ele apenas tinha seguido viagem”, relatou.
A ausência de Sebastião começou a preocupar a família no mês seguinte, quando ele não retornou para visitar a mãe como havia combinado.
“No fim do ano, fomos para Mato Grosso do Sul e ele não apareceu. Aí eu pensei: ‘tem alguma coisa errada’. Ou ele não soube que eu iria, ou algo de fato aconteceu. Aquilo começou a levantar uma dúvida”, disse Ednei.
O professor ainda procurou amigos e conhecidos do irmão, que afirmaram tê-lo visto em Guia Lopes da Laguna. Por isso, acreditou que Sebastião estivesse bem.
Em março de 2025, a mãe deles faleceu aos 81 anos, em Jardim (MS).
“Eu estava certo de que ele iria aparecer. Quando não apareceu, pensei: ‘tem alguma coisa errada’”, relembra Ednei.
No final de março, ele recebeu uma ligação da coordenadora do projeto “Lembre de Mim”, Simone Mariana Delgado, informando sobre a morte do irmão.
“Foi aí que comecei a ligar uma coisa na outra”, contou.
Sebastião foi vítima de execução: foi asfixiado, amarrado e lançado no Rio Cuiabá. A motivação do crime ainda não foi esclarecida.
“Agradeço a Deus que a minha mãe faleceu sem saber que ele foi morto dessa forma. Isso é um peso que eu não precisei carregar para ela”, comentou Ednei.
Agora, o professor aguarda o encerramento dos trâmites legais para decidir sobre eventual exumação dos restos mortais. O túmulo, no entanto, já recebeu identificação.
“Foi bom saber, porque senão ele ia continuar desaparecido por quanto tempo? […] Encerrou-se um ciclo. E sempre que um ciclo se encerra, outro começa. Faz parte da vida”, finalizou.
Casos de Mato Grosso do Sul no projeto
O projeto, iniciado em janeiro de 2025, já identificou três pessoas naturais de Mato Grosso do Sul.
Claudemir Pereira de Oliveira, nascido em Bonito em 25 de julho de 1976, é o caso mais antigo identificado. Ele deu entrada no IML em 2011. Sem conseguir localizar a família, a Politec divulgou a foto dele nas redes sociais.
Cassiano Alves da Silva, de 37 anos, natural de Dourados, foi encontrado morto em casa, no Bairro Pico do Amor, em Cuiabá, no dia 12 de novembro de 2024.
Adilson Teixeira Alecrim, de 49 anos, nascido em Campo Grande, morreu em um acidente de trânsito no dia 18 de dezembro de 2024, na Rodovia Hélder Cândia. Ele ainda aguarda identificação por parte da família.
Informações sobre esses casos podem ser obtidas pelo telefone (65) 9 8108-0143, do IML de Cuiabá.
O funcionamento do projeto
A coordenadora do projeto, Simone Mariana Delgado, explica que as identificações são feitas a partir das digitais dos falecidos. A Politec utiliza bases como o RG, registros criminais e o sistema do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Como os sistemas estaduais não são integrados, o projeto depende de parcerias com as perícias de outros estados — como a de Mato Grosso do Sul.
“Por conta dessa limitação, já tivemos duas colaborações com o Estado”, afirma Simone.
Após a identificação, a equipe contata os familiares, permitindo o registro oficial do óbito em cartório e, se desejado, a restituição dos restos mortais para sepultamento.
“Apesar de não ser a notícia que se espera, saber do falecimento de alguém que estava desaparecido há anos traz alívio. A identificação tem um impacto muito grande na vida dessas pessoas que ficaram tanto tempo sem resposta”, finaliza a coordenadora.
“Esses desaparecimentos trazem muita dor para as famílias, e esse trabalho é um acalanto, um suspiro, parabéns aos envolvidos” (Presidente da ABRAPOL – PPF Régis)